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Nas curvas da Bienal

  • Foto do escritor: p4ll0n3
    p4ll0n3
  • 9 de nov. de 2021
  • 4 min de leitura



São três pavimentos em uma área total de 25 mil m², um monstruoso prédio retangular cheio de curvas em seu interior, projetado por Oscar Niemeyer. O Pavilhão Ciccillo Matarazzo sedia, desde 1957, a Bienal de São Paulo. Sem tema específico em 2018, em sua 33ª edição, a Bienal se mostra livre sem impor conceitos, mas valorizando a interpretação do indivíduo com a arte exposta.


Não tem tema, mas tem nome. Foi intitulada de Afinidades Afetivas, título inspirado no escritor e filósofo alemão Goethe e no crítico de arte e ativista político brasileiro Mario Pedrosa.





Assim que entrei no pavilhão sou cercado por obras ocupando todos os espaços e que ao mesmo tempo respeitam o vazio gritante da arquitetura de Niemeyer. Entre as obras que se destacam ao olhar está a “Vivam os Campos”, de Antonio Ballester Moreno, com árvores ilustradas em painéis que rodeiam o térreo da Bienal e um círculo de cogumelos feitos de cerâmica pelas mãos de estudantes dos CEUs (Centro Educacional Unificado) de São Paulo. Essa obra que envolve não só o artista, mas também os estudantes, já me mostra o caráter plural da Bienal. A afinidade entre obra e indivíduo já se mistura de forma livre e sem obstáculos.


Minha visita foi a mais despretensiosa possível, sem informações prévias do que eu iria encontrar, busquei ser direcionado pelos caminhos que as obras me levavam. Parando para ler os informes das exposições entre as curvas do pavilhão facilmente se compreende o que se propõe.


Esse ano, a curadoria do que seria apresentado ficou nas mãos de artistas-curadores que trouxeram sua arte à Bienal, expondo junto a outros artistas de sua escolha. Um grande labirinto de coletividade se formou a partir dessa ideia.


Depois de passar pela obra de Moreno (artista-curador), junto à outros artistas que ele traz sob a alcunha de “Sentido/Comum” (nome da exposição coletiva), nos deparamos com um conglomerado de repartições com obras escolhidas pela artista-curadora Sofia Borges, que além de suas próprias criações trouxe contigo um extenso time, entre eles o escultor Tunga, morto em 2016 e homenageado nessa edição. Esse espaço é nomeado como “a infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um”, que se destaca por ser uma exposição inacabada, tendo outros artistas incluídos ao longo da Bienal.





Subindo pelas rampas curvadas do pavilhão, me deparo com a segunda parte dessa jornada cultural. Lá passo pelas exposições coletivas, “aos nossos pais”, “o pássaro lento” e “sempre, nunca”, com a curadoria de Alejandro Cesarco, Cláudia Fontes e Wura-Natasha Ogunji, respectivamente. Todos artístas-curadores.


Nesse momento, percebo que posso ouvir playlists criadas pelos artistas para acompanhar pelo Spotify enquanto aprecio as obras. E para quem não tem o aplicativo em sua versão paga, o guia de bolso que pegamos na entrada da Bienal acompanha um código que dá um mês grátis de Spotify. Então levem seus fones para ter a imersão completa das exposições.


No terceiro andar, obras mais direcionadas à pintura e sua força como expressão do cotidiano e de tempos de opressão. Destaque para obras da exposição coletiva “Stargazer ii”, que conta com o sueco Ake Hodell e ícones russos, como Ladislas Starewich e seus stop-motions com insetos, além de Lim-Joham, Miroslav Tichý e a artista-curadora Mamma Andersson, entre outros.


A coletividade termina com “os aparecimentos”, de curadoria do artista Waltercio Caldas, que além de suas obras traz contigo cerca de 19 artistas, onde mais uma vez o saudoso Tunga se mostra presente.




Projetos individuais


Além das exposições coletivas, há os projetos individuais, esses trazidos pelo idealizador da Bienal desse ano, o curador-geral Gabriel Pérez-Barreiro. Entre os artistas individuais vejo a área dedicada ao guatemalteco Aníbal López, que morreu em 2004 e nunca teve uma exposição de tal tamanho dedicada ao seu trabalho. Suas obras vão de esculturas e pinturas até intervenções públicas (gravadas em vídeo e disponíveis na exposição), o artista tem uma grande importância na resistência na Guatemala dos anos 90.


Outros trabalhos individuais da Bienal são de Denise Milan, Feliciano Centurión (outro artista já falecido e homenageado), Vânia Mignone que se destaca pela mistura da música com a pintura pop e apocalíptica, Siron Franco, brasileiro de Goiás que retratou através de suas pinturas o maior desastre nuclear no Brasil. Tudo isso só no terceiro andar.


Já voltando escadas abaixo se encontra trabalhos individuais de Lúcia Nogueira, que também já faleceu e recebe homenagem na Bienal com suas obras especializadas em esculturas e instalações com objetos do cotidiano. Luiza crosman, Maria Laet, Nelson Felix e Tamar Guimarães fecham o segundo andar com as mostras individuais. Já me preparando para ir embora ainda consigo atravessar pelos projetos individuais de Alejandro Corujeira e Bruno Moreschi.


Seria impossível, passível a muito spoiler e chato relatar tudo o que vi na Bienal, talvez seja melhor deixar claro que ao entrar e sair do pavilhão a sensação é de que atravessamos um extenso mundo onde a experiência que se vive é uma expansão do nosso pensamento, das afinidades com outras ideias e da afetividade com os processos coletivos. Tal espaço onde se encontra a Bienal se torna indispensável neste momento em que vivemos ameaçados pela uniformidade dos discursos e assombrados por fantasmas de um passado autoritário.


A 33ª Bienal de São Paulo vai até 9 de dezembro de 2018 e fica dentro do Pavilhão Ciccillio Matarazzo, no Parque Ibirapuera. A melhor forma de chegar lá é pelo portão 3 do parque. As visitas são gratuitas e podem ser feitas nas terças, quartas, quintas e sextas, das 9h às 19h. Sábados, domingos e feriados vai das 9h às 22h.




 
 
 

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